? ºC Tangará da Serra - MT

Mundo

08/11/2017 09:26 R7

Macri aproveita crise de governos progressistas para assumir liderança na América do Sul

Assim que foi eleito presidente da Argentina, em 2015, o ex-presidente do Boca Juniors e ex-prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, 58 anos, consolidou uma trajetória construída milimetricamente. Passo a passo. Ano a ano.

Deixou claro, naquele momento, que o perfil a ser adotado em sua gestão seria o da Velha Argentina, formadora de uma classe média e de uma elite poderosas, dentro dos novos tempos: organização europeia e abertura ao capital estrangeiro para combater os anos viscerais e intensos que culminaram com uma crise financeira no país.

Esse estilo difere do clássico argentino (também antigo, mas de outra linhagem, de cunho popular), apegado ao tango, à intensidade das emoções, à paixão por herois sofredores, à necessidade premente de líderes salvadores.

Macri, empresário, é frio, sorriso leve, discreto, objetivo. E é assim que ele está conduzindo o país, com a popularidade em alta e políticas que têm agradado a maioria da população.

Tal postura o fez obter a façanha de, depois de décadas de instabilidade, golpes, governos polêmicos e multidões em protesto, trazer para a Argentina um clima de relativa paz e se tornar o primeiro presidente não-peronista eleito democraticamente após a morte de Juan Domingos Perón (1974).

Agora, Macri desfruta desse novo método de liderar, na avaliação da professora de Relações Internacionais, Marília Carolina de Souza, da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado) em São Paulo.

— Não é só uma questão de imagem é de fato uma nova via que se abre na região, após uma conjuntura progressita de governos de esquerda que tivemos. É uma repaginada da década de 90, liberal, que retorna com tudo nessa região na qual processos progressistas entraram em crise, como no Brasil e na Venezuela.

O fato dele ter mantido boa parte do seu discurso de campanha também o favoreceu. Bem ou mal, ele voltou mesmo a se abrir para investidores externos, manteve boa relação com bancos, priorizou a atração de investimentos e não titubeou em combater os sindicatos e subsídios, inclusive aumentando com intensidade as tarifas de gás e energia.

 

Em outras palavras, ele se aliou a forças do mercado que hoje têm sido preponderantes para dar suporte a governos, ainda mais em regiões instáveis. Marília também considera que a aliança com o mercado financeiro internacional foi fundamental para a popularidade do atual governo. E a questão do endividamento é o que menos importa, já que, se houver rombos, estes não estão fazendo efeito midiático agora.

— Macri se fortaleceu porque sinalizou para Nova York, para os credores que estavam em conflito com a Cristina Kirchner (ex-presidente), enviou uma mensagem de que o país iria cumprir compromissos internacionais, buscando ser polo de atração de investimentos.

O governo Macri tem conseguido convencer a população de que este é caminho a ser seguido. Quase como uma cartilha sagrada. Macri é calculista e sabe que essa objetividade é crucial para ele não se perder em conflitos existenciais dentro de seu governo. Assim, no ritmo do passo a passo, ele já conseguiu atingir outra etapa: a de líder regional, conforme atesta a professora Marília.

— Ele se beneficiou muito do processo de lacuna de liderança na América do Sul, com a crise no Brasil, e se tornou uma liderança e um ponto de apoio dos Estados Unidos na região.

E, com isso, ele dissocia a sua imagem da do velho populismo, do peronismo e da chamada luta de classes. Suas falas se encaixam à tradicional classe média que critica os sindicatos e valoriza o que ela considera como trabalhador e cumpridor de suas obrigações, desconsiderando o fato de que um operário pode reinvindicar melhorias e não ser "vagabundo". Isso, no entanto, é uma outra discussão.

O que vale no momento é a empatia que Macri vem conquistando junto ao eleitorado. A coalizão governista de centro-direita Cambiemos (Mudemos) foi a mais votada nos cincos principais distritos, incluindo a província de Buenos Aires, a mais rica e a maior do pais, nas últimas eleições legislativas, em outubro. Macri busca mostrar ao mundo e ao seu povo uma Argentina cada vez mais previsível. É assim, afinal, que ele sempre planejou sua própria carreira política.


Crie seu novo site AgenSite
versão Normal Versão Normal Painel Administrativo Painel Administrativo