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Nacional

28/03/2018 16:06 G1

MPRJ denuncia sete traficantes da Rocinha por tortura contra ex-morador

Sete traficantes da Rocinha foram denunciados nesta quarta-feira (28) pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por tortura contra um morador da favela, na Zona Sul do Rio. A sessão de espancamento de mais de duas horas contra o homem, acusado de passar informações sobre o armamento dos traficantes à Polícia Militar, só não terminou em morte porque ele conseguiu fugir, aproveitando a desatenção do bando, preocupado com a chegada de policiais da UPP. A vítima não está mais no Rio, e os sete autores, que também respondem por associação ao tráfico, estão foragidos.

O promotor Marcelo Muniz Neves, da 1ª Central de Inquéritos do Ministério Público, ofereceu denúncia contra Walison Roque Maciel, o Extremista; José Carlos de Souza Silva, o Zé Paraíba; Domingos Manuel de Santana Júnior, o Bos; Thiago Silva Mendes Neris, o Catatau; Luiz Carlos da Silva, o Mudinho; Adalberto Ribeiro da Silva, o Zóio; e Julio Medina da Silva, o Rirritinho. O traficante conhecido como Zé Paraíba era, inclusive, um dos homens de confiança de Rogério 157, quando este ainda mantinha aliança com Antônio Bonfim Lopes, o Nem.

 
Amarildo desapareceu após ser levado por policiais da UPP da Rocinha em 14 de julho de 2013; seu corpo nunca foi encontrado (Foto: Reprodução: TV Globo)

Amarildo desapareceu após ser levado por policiais da UPP da Rocinha em 14 de julho de 2013; seu corpo nunca foi encontrado (Foto: Reprodução: TV Globo)

A denúncia pede a prisão preventiva dos sete traficantes. O promotor diz que há semelhanças entre este caso e a morte de Amarildo, torturado e morto por policiais da UPP da Rocinha em 14 de julho de 2013. Em 2016, 12 dos 25 policiais acusados foram condenados por homicídio, fraude processual e ocultação de cadáver do ajudante de pedreiro, cujo corpo jamais foi encontrado.

" É muito parecido, por ser uma tortura e visar teoricamente ao mesmo objetivo: obtenção de dados e punição de eventual informante. A diferença é que este conseguiu escapar", avaliou o promotor.

O ex-delegado titular da 11ª DP (Rocinha), Antônio Ricardo Lima, assinou documento pedindo a prisão cautelar dos sete envolvidos em janeiro de 2018.

 
Vítima de tortura de traficantes em 2015 sofreu cortes profundos na cabeça e teve braço fraturado (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Vítima de tortura de traficantes em 2015 sofreu cortes profundos na cabeça e teve braço fraturado (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

 

O crime aconteceu em janeiro de 2015. Um homem, que será identificado como X. para ter sua identidade preservada, voltava do trabalho na Zona Sul em direção a Rio das Pedras, na Zona Oeste, onde morava. Ao descer na Rocinha, encontrou Bos, seu ex-vizinho, que o segurou e levou para outros traficantes o agredirem na localidade conhecida como Valão. Em seguida, X. foi levado para uma creche abandonada na Rua 2, onde Zé Paraíba, gerente do tráfico, ordenou que outros traficantes o espancassem com pedaços de pau.

"Pode pegar essas madeiras e quebrar ele todo", disse o traficante, de acordo com depoimento da vítima.

X. já não morava na comunidade desde 2012, e Zé Paraíba afirmou que havia definido uma recompensa de R$ 1 mil por sua captura. Em seguida, atingiu o braço de X. com uma marreta, fraturando seu antebraço esquerdo.

Enquanto a tortura acontecia, inclusive com golpes de faca, a vítima ouviu fogos de artifício: eram traficantes anunciando a chegada de policiais da UPP. Zé Paraíba, ao saber disso, disse:

"Faz o seguinte, contém ai os (soldados da) UPP ; Quando estiverem chegando perto, vocês dão tiro nele e poem na conta da UPP"

Quando percebeu, X. decidiu que iria se arriscar para tentar fugir: pulou pela janela e atravessou os telhados das casas vizinhas, até chegar à Curva do S, onde viria a ser resgatado por policiais militares. Em depoimento, os agentes afirmaram que o encontraram no local após serem avisados por um mototaxista. Na UPA 24h e no Hospital Miguel Couto, foram constatados os cortes profundos na cabeça e a fratura no terço médio do rádio esquerdo.

A desavença entre X. e os traficantes da Rocinha vinha de 2012; cansado dos maus-tratos feitos aos moradores e depois de problemas com traficantes de uma região da Rocinha, X. foi questionado por policiais militares, em uma abordagem de rotina, se poderia mostrar as casas de traficantes. X., coberto com um capuz para não ser reconhecido, foi lá e mostrou as residências de cinco criminosos, que não estavam. Depois disso, X. foi viver em Rio das Pedras, onde morava quando foi sequestrado e torturado pelos traficantes.

Para Marcelo Muniz, é importante que abusos como este sejam denunciados.

" A gente jamais pode imaginar que a tortura cessou. Por isso, é importante que se denuncie, já que ele pôde fazer isso. É extremamente difícil que se individualizem todos os nomes que participaram da tortura" , finalizou o promotor, que disponibilizou o número 127, da Ouvidoria do Ministério Público, para denúncias.


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