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Opinião

14/11/2016 12:59

Efeito Trump

O que mais me espanta em consequência das eleições norte americanas é a quantidade de pessoas que se manifestam impressionadas com a vitória de Donald Trump e que em coro consideram agora ser possível a América do Norte entrar em guerra, que consideram ser agora possível a construção de muros, assim como subalternizar mulheres ou selecionar humanos pela cor, credo ou apetite sexual.

E o mais interessante é tratar-se de comentários proferidos por pessoas que sabem ler, que têm acesso a bibliotecas, televisão, internet, mas que só neste breve momento eleitoral parecem ter entendido que todas essas e outras violências podem ocorrer. No fundo, pessoas que assim se revelam desconhecedoras de que tudo isso já ocorre e prolifera pelo mundo, com responsabilidades e causas perfeitamente identificadas.

 

Mas toda essa desatenção é compreensível, pois muito provavelmente são vozes vindas de pessoas que têm estado muito ocupadas com outras coisas, coisas muito suas ou muitíssimo mais importantes. Porém, essas pessoas precisam compreender que ao resumir a sua expressão a pontuais exclamações de espanto, a sua participação constitui-se assim como a consciência legitimadora da triste realidade social. E com essa aceitação a agonia alastra, não por ordem de um presidente, mas por covardia cidadã.

 

No entanto, o resultado concreto da eleição norte-americana não me espantou. Primeiro, porque não torcia por nenhum dos candidatos, o que me fez não perder o sono para acolher o eleito, rosto de uma vontade expansionista, beligerante e ingerente que, com uma economia concretizada fora das suas fronteiras, difícil e deliberadamente sairá de cena. Segundo, também não fiquei espantado com a derrota, pois ambos os candidatos possuíam chance de ganhar e digo isto convicto e fiel há ideia de que sempre tenho 50% de probabilidades de um dia poder passear com Jannifer Lopez, em virtude de eu o querer. Terceiro, porque há já algum tempo sinto um silencioso e crescente vento de intolerância circulando por fora dos tradicionais ninhos racistas e xenófobos.

 

Mas como dizem os americanos "the show must go on" para os olhos de todos. Porém, a cada dia que passa os aplausos são menos e os ingressos mais caros. Grande parte dos jovens não se identifica com o espetáculo e afastam-se crescendo longe dos conteúdos dos processos eleitorais. Não sei se esses jovens arrastarão consigo seus pais, mas sei que quando eles educarem seus próprios filhos a democracia, como a conhecemos, será certamente diferente.

 

Como já alguém falou, o capitalismo em democracia é como uma união infeliz onde impera a lei do mais forte. E nesse sentido é importante estar-se atento às coreografias de outros autores deste teatro de sombras. Observar a China que se ergue de um sono milenar e rápido ficará em pé. Ver a Rússia se arrumar pronta para participar do baile. Olhar uma Europa perdida em tempos medievais num complexo labirinto de protetorados do reino. Chorar uma América do Sul sequestrada, sofrendora da síndrome de Estocolmo. Sentir uma Arábia profunda, quente e diferente. Testemunhar África num estado latente pré-terminal eternamente ocultado. E neste contexto simplista, mais do que nunca não acredito que um homem, ao bom estilo cinematográfico americano, seja solução para o que quer que seja.

 

*RUI PERDIGÃO é administrador, consultor e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso

 


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